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. E se...

"Para Ler ouvindo 'Se' - Djavan"

Por mim, eu ficaria, como todas as outras noites. Mas sempre vem a razão me jogando um balde de agua fria. Sempre escuto aquela voz dizendo pra eu ir embora. Não que eu seja menos imoral ou atenda às expectativas da política de boa impressão, apenas deixo que isso, que ainda não entendo, tome algumas decisões por mim. Mas com ele, é diferente.

Ele sempre aparece querendo tudo como quem não quer nada, e eu na tentativa de mudar o presente, confundir a solidão e afastar pré-julgamentos, me recolho a tudo que em que não acredito por um mero capricho da minha imaginação. Capricho sim, porque quem vive amores impossíveis e sonha para que sejam infinitos apenas sonha e não vive amor algum. Me contaram que tudo é possível quando se ama. Mas isso não passa de um clichê barato do amor, que só vende cartões no dia dos namorados,  nunca me contentei com isso. E sempre preferi agir à esperar. Mas quem muito espera um abraço só recebe beliscões indesejáveis.

E se ele bebesse menos e me olhasse mais? Se ele ao menos pegasse na minha mão tantas vezes quantas ele pega no copo, me daria por satisfeita. Mas é muito mais fácil me esconder, me ter em segredo. É cômodo e não dá trabalho. Meu telefone não muda a cada noitada, e meu endereço continua o mesmo, meu msn está sempre logado e eu nunca estou ausente, pelo contrário, estou sempre ali, com com meu ar de quem não quer nada, esperando por uma atitude dele. Eu também não me importo, é cômodo e não dá trabalho. Mas como tudo na vida, um dia a gente cansa. Já tive todas as frases feitas na ponta da língua, esperando apenas serem pronunciadas, mas sempre engasga. O 'não' sempre tem cara de 'sim', fruto da emoção descontrolada, isso tinha que acontecer logo comigo, que tenho mania de racionalizar tudo?

E se eu dissesse que eu posso até ser o brinquedinho da prateleira, mas que não sirvo apenas de enfeite, que também  preciso de cuidados,  principalmente após o uso. E se eu colocasse todas as minhas incertezas e frustrações na frente dele, e se eu falasse 'não' de verdade, e se eu parar de fingir que não me importo de viver à sua maneira. E se eu parar de fazer tudo só pra agradar. E se?      

. Passado presente .



Era como se eu fosse uma grande gaveta velha, que fica num canto qualquer do quarto, que emperra pra abrir e que você coloca tudo o que não tem lugar, tudo o que não tem muita importância mas ao mesmo tempo tem pena de jogar fora.  A bagunça a cada dia piora e ninguém nunca tem tempo pra arrumar. O tempo vai passando, as coisas vão ficando pra depois, até serem esquecidas completamente. Quase. Até o dia em que chega uma nova pessoa,

. Ausência .

Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico muda quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar. Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar. Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressada, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.

. Insistência .

Eu levei 21 anos pra saber que eu sou uma mulher incrível, sendo que ele ainda não percebeu isso. Eu tenho tantas coisas pra conquistar, mas insisto em uma que eu sei que não vai dar em nada, só pra ter o que tentar. Só pra não dizer que permaneci estática. Então acabo deixando algumas coisas passarem por saber que nem tudo tem uma razão lógica pra ser entendida, nem tudo que me mantém sã me faz feliz. Seria tão lindo morrer de amor e permanecer viva, porém, viver assim, a felicidade alheia é suicidar-me aos pouquinhos. Tudo era perfeito enquanto ainda acreditava em contos de fadas, ou simplesmente quando meus pés tocavam o chão. As coisas acontecem e são muito mais à flor da pele. A perda é bem mais significante do que os momentos de presença. Não me acostumo à rotina de ir e vir das pessoas, esse pêndulo insuportável, essa rotatividade. Alguém poderia realmente ficar. Mas só fica esse silêncio, essa sala vazia, esse mesmo quarto, a mesma cama bagunçada e o tapete ainda manchado de café. Eu fico nessa mesma casa, com o mesmo olhar vago de quem procura em vão um complemento. Será que precisarei de mais tempo pra saber que sou tão incrível que mereço bem mais do que você pode oferecer? Piadas sem graça, tapas, moridas e arranhões, noites mal dormidas, o cheiro da maconha tomando todo o quarto. Isso não é pra mim, não mais. Eu vou continuar aqui, sendo a mesma mulher incrível que eu sei que sou, que de longe você nem sonha em ver e de perto nem pode me alcançar. Meu humor vai variar como as suas atitudes sim, porém, minha alma vai sempre estar sorrindo mesmo que meus lábios a contradiga, mesmo que esse sorriso não chegue aos meus olhos. E eu vou continuar insistindo, só porque você me lembra o mistério da vida: Não entendemos nada mas continuamos insistindo.

- Jenny Guimarães - 

. Resíduos .

O que mais me dilacera é a dor física que a ausência trás. É a falta do abraço, das mãos dadas, da tentativa de me jogar na piscina. Essa sensação residual de que algo está sempre faltando. A minha rotina não é mais a mesma, o futuro deve ser todo planejado novamente, de maneira diferente. Essa falta de perspectiva, essa vida mal arranjada, fragmentada. Eu sem saber o que vou fazer com as lembranças que vivem arranhando as paredes, e você saindo pela porta que estava trancada. Eu recolhendo cada pedacinho de vida jogado pelas janelas pra não permanecer vazia, só pra ter o que guardar, só pra ter o que contar. Não que eu não tenha nada melhor pra fazer ou não me dê o valor, mas para me refazer é preciso primeiro se desfazer. De qualquer maneira, eu que achava que nunca mais te veria novamente, continuamos nos encontrando, na rua, no mercado, no bar favorito, quase todos os dias como uma amarga ironia. Irei cumprimentá-lo com um sorriso raso e um aperto de mão seguido de um abraço frouxo e você me dará um beijo na testa, como quem se lamenta da maneira que tudo aconteceu. E você vai reparar na minha impotência e em todo meu medo de já ter sido esquecida, então irá perceber toda a minha fragilidade e em quanto eu me desfaço e tento permanecer inteira. Mas você não vai ligar pra isso, vai achar mais um teatro onde eu sou a protagonista e você o que sempre sai primeiro de cena, desse cenário mal feito que a tanto tempo ameaçava cair. E passado alguns meses, conhecerei sua nova namorada, agirei como se fosse meramente um conhecido e com o passar do tempo pensaremos cada vez menos em nós, até nos esquecermos completamente. Quase. Incrível como aquele sorriso, pleno de significados se tornou tão importante quanto um comercial de pasta de dente. É essa capacidade de esquecer que me mantêm viva. E depois de um certo tempo, começo a procurar um novo amor até encontrá-lo, e juro que será definitivo até ele ir embora. 

- Jenny Guimarães -